sábado, 3 de setembro de 2016

ainda estou aqui



pelo telefone, meu amor, nem me diga
sobre as palavras tão pouco que ouvias
que elas sim, saíram direto do meu estômago
esses tapas que damos na própria cara
e como você mesmo diz, éramos perdidos

e isso me deixa fula da vida, e meus ossos enterrados
do outro lado da linha telefônica
esse fio horrível percorrendo a zona periférica
madrugada vazia dando murro em ponta de faca 


esperei por você como quem aguarda a redenção
de si mesmo, a novidade de ser outro
mas feito um leão
solto pelas ruas, entre os edifícios cinzentos 
perdendo-se
as meias vermelhas quase transparentes
só para deslizar no sol das tuas pernas



sábado, 30 de abril de 2016

olhando o mar ...



Eu vi o sol morrer no meu mar predileto, morrer com as antigas lembranças. Afundando vermelho naquele azul frio, profundo. O entardecer deixando as coisas avermelhadas até me cegar completamente as ideias. E perdendo a intenção da lógica, pouco antes experimentada apesar de breve, pensei, aonde mais eu poderia ir com aquele mar? As ondas estavam calmas naquela hora e suas pequenas cristas chegavam incessantemente na minha frente, uma seguindo a outra sem interrupção. Um vento atingia meu rosto, espalhava meus cabelos e raspava na espuma, traindo aquele ir e vir, empurrando para o ar gotas transparentes. Era uma esperança que em vão eu via na natureza. Era só uma visão. Mas meu coração sentia diferente, queria permissão para a saudade se instalar confortavelmente e se perder nela. Eu acabara de deixar uma vida para trás, e ainda assim sabia que a abandonada era eu. 





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

noturno




COMO UM VAMPIRO
COM INTENÇÃO
DE SANGUE
SAUDADE DO TEU
TRANQUILO PULSAR
VEIAS COM VIDA
SALTANDO PARA
A MORTE
DO PRAZER
QUE ENCERRA
TODO O SEGREDO
EM NOITES
SECRETAS E MORNAS.










                                                             












sábado, 6 de fevereiro de 2016

no sofá






caindo vertiginosamente para aquele tédio acumulado
horas a fio na monotonia de um vídeo
quem sou eu se não aqueles personagem multifacetados
quem sou eu se não a velocidade

recarga dionisíaca nunca mais
apenas um start again
subtrai-me essa noite de estrelas

confesse, que nunca havias pensado
que o tédio pode ser veloz 



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

longe












o vento uiva pelas janelas
e as frestas abandonam-se
como entidades mitológicas, ganham vida
invencível é a vontade de palavras
enquanto acreditar nessa força
na loucura do vento, e das horas que seguem
em frente ao papel branco, vazio, insano
não estou diante da máquina, estou absorvendo
as lufadas dessa agitação pelos poros
nas possibilidades que provocam minhas mãos



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

migrar...





de algum santuário desconhecido
vibram sinos por trás do tráfego e dos prédios
o sol investe contra a cinzenta cidade, morros distantes gritam
pássaros nômades por cima de minha cabeça
e a internet me aguarda, obcecada
pesquiso sobre aves migratórias
quero confabular com essa natureza
ao lado do albatroz um automóvel
ao lado de um ganso selvagem um videogame
ao lado de um cisne um comercial que pula
e ouço dicas para perder peso, e tenho de esperar
analiso meu corpo, deixo a mente parada
volto para a sacada e eis que meus queridos amigos se foram...






quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Fuga nº 1







                                                                 cena do filme Os Incompreendidos de François Truffaut




estou diante da cidade
nua como a poesia dos visionários
bardos e sacerdotisas em suas danças
mutantes selvagens lutando contra os ciborgues
inspirada pelas musas exorcizadas do concreto
pela beleza de um anjo delgado, verde
substituindo a realidade vulgar