quinta-feira, 2 de março de 2017

garrafa cheia

afundei o sutiã branco na terra
abri um buraco naquela úmida terra negra
meus seios voavam e estremeciam
o ventre era fisgado como se arranca um peixe da água
enquanto meus joelhos roçavam num chão selvagem
fui depositando tecidos e documentos
abrindo caminhos com as unhas entre raízes e ervas daninhas
minhas calcinhas,
meu jeans e a blusa de cetim absorvida
o último bilhete de loteria e a última conta de gás
entre aquelas estranhas almas, pessoas indo e vindo
seus escritórios, suas casas, seus mapas me eram desconhecidos
cintilava em minha mente meu destino
amorteci até esquecer o próprio corpo
para renascer e migrar junto aos patos silvestres
para as bandas do norte distante, encontrava eu um novo verão
e ali, depois de transmutar e ouvir músicas nas nuvens
voltei minha atenção para as palavras silenciosas
aquelas ideias descabidas que tanto me preenchiam

 – assim, virei poeta

bebi o vinho
dei três pulos e gargalhei
chamei, chamei novamente,
gritei meu nome no centro da rosa dos ventos
e dancei nas chamas de uma eufórica lucidez 










sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Sinto que você quer


Sinto que você quer
Um tango comigo
Um gomo de laranja
Do céu mais um pedaço

Sinto que você quer
Um beijo de cereja
Um doce de anjo
Damascos e amêndoas

- Sim, é você que não se reconhece
um desejo de mim que ultrapassa você
um delírio sem cabimento
e sem controle se vai, no rumo do infinito

tão largo mundo, tão gigante
dentro de nós



domingo, 27 de novembro de 2016

Delta de Vênus parte I




Conduzida pela minha vontade
Contra a velocidade das ruas
Degelando fisionomias alheias

Vestida com roupas de seda antiga
Botas de lutadora de boxe
E broches com dragões dourados

Cavalos invisíveis, dorsos selvagens
Na mala, um perfume de laranjeiras

           Caminhando entre seres enevoados
           Um prazer estranho se aproxima


sábado, 15 de outubro de 2016

promessa de fogo



 

é algo que vem de você e minha alma sai do silêncio
o gosto salgado me leva à um prazer estranho
lágrimas quentes e brisas movendo-se em saudação às folhas

os loucos verdes momentos da primavera
ainda sob um céu rasgado de azul intenso
e você livre para o amor, acercando a dilatação de minhas veias

teus pulsos,
estômago e ventre tremendo colados em mim,
a terra ainda  fresca, e nada morre

substâncias se misturam e copulam aos meus pés
desenhos coloridos perfume de almíscar
misturando-se com jasmins intensos meus pensamentos

– eliminando percepções adversas do trânsito ao longe e do resto do mundo mais longe
salvando o humor com a leveza dos ossos –

o tempo tropeça tão logo vejo a lua
menestrel da noite se aproximando aos poucos
mergulhando tudo dentro de nós e nós em tudo



sábado, 3 de setembro de 2016

ainda estou aqui



pelo telefone, meu amor, nem me diga
sobre as palavras tão pouco que ouvias
que elas sim, saíram direto do meu estômago
esses tapas que damos na própria cara
e como você mesmo diz, éramos perdidos

e isso me deixa fula da vida, e meus ossos enterrados
do outro lado da linha telefônica
esse fio horrível percorrendo a zona periférica
madrugada vazia dando murro em ponta de faca 


esperei por você como quem aguarda a redenção
de si mesmo, a novidade de ser outro
mas feito um leão
solto pelas ruas, entre os edifícios cinzentos 
perdendo-se
as meias vermelhas quase transparentes
só para deslizar no sol das tuas pernas



sábado, 30 de abril de 2016

olhando o mar ...



Eu vi o sol morrer no meu mar predileto, morrer com as antigas lembranças. Afundando vermelho naquele azul frio, profundo. O entardecer deixando as coisas avermelhadas até me cegar completamente as ideias. E perdendo a intenção da lógica, pouco antes experimentada apesar de breve, pensei, aonde mais eu poderia ir com aquele mar? As ondas estavam calmas naquela hora e suas pequenas cristas chegavam incessantemente na minha frente, uma seguindo a outra sem interrupção. Um vento atingia meu rosto, espalhava meus cabelos e raspava na espuma, traindo aquele ir e vir, empurrando para o ar gotas transparentes. Era uma esperança que em vão eu via na natureza. Era só uma visão. Mas meu coração sentia diferente, queria permissão para a saudade se instalar confortavelmente e se perder nela. Eu acabara de deixar uma vida para trás, e ainda assim sabia que a abandonada era eu. 





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

noturno




COMO UM VAMPIRO
COM INTENÇÃO
DE SANGUE
SAUDADE DO TEU
TRANQUILO PULSAR
VEIAS COM VIDA
SALTANDO PARA
A MORTE
DO PRAZER
QUE ENCERRA
TODO O SEGREDO
EM NOITES
SECRETAS E MORNAS.