sexta-feira, 14 de julho de 2017

mediterrâneo



Sou uma poeta sem rumo
Caminhando pela cidade
Uma bandeira no ombro, vermelha
Sangue do meu sangue o mundo
Nunca pensei seriamente no fim
Previ inúmeros conflitos e desilusões
Suicídios dos planos dentro de quartos
Mas isso jamais, minha ambição
Jogada aos corvos, dilacerada pelo tempo

E por esse pôr do sol agudo, visceral como a noite que o precede
Amor, em Marselha fomos tão felizes
Lençóis de cetim, vinhos dramáticos encorpados, e harpas
E hurra hurra em violinos sentimentais
Sombras do que queríamos ter sido
E agora em nuvens e bodegas desolados vemos
A miséria de ser aquilo que tanto negamos



quinta-feira, 1 de junho de 2017

depois de agora






Deixei uma árvore crescer num pequeno jardim
Não sobrou espaço para mesas e cadeiras, nem vasos
Mas no futuro haverá frescor e vida e poderemos ler a Odisseia lá





quinta-feira, 2 de março de 2017

garrafa cheia

afundei o sutiã branco na terra
abri um buraco naquela úmida terra negra
meus seios voavam e estremeciam
o ventre era fisgado como se arranca um peixe da água
enquanto meus joelhos roçavam num chão selvagem
fui depositando tecidos e documentos
abrindo caminhos com as unhas entre raízes e ervas daninhas
minhas calcinhas,
meu jeans e a blusa de cetim absorvida
o último bilhete de loteria e a última conta de gás
entre aquelas estranhas almas, pessoas indo e vindo
seus escritórios, suas casas, seus mapas me eram desconhecidos
cintilava em minha mente meu destino
amorteci até esquecer o próprio corpo
para renascer e migrar junto aos patos silvestres
para as bandas do norte distante, encontrava eu um novo verão
e ali, depois de transmutar e ouvir músicas nas nuvens
voltei minha atenção para as palavras silenciosas
aquelas ideias descabidas que tanto me preenchiam

 – assim, virei poeta

bebi o vinho
dei três pulos e gargalhei
chamei, chamei novamente,
gritei meu nome no centro da rosa dos ventos
e dancei nas chamas de uma eufórica lucidez 










sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Sinto que você quer


Sinto que você quer
Um tango comigo
Um gomo de laranja
Do céu mais um pedaço

Sinto que você quer
Um beijo de cereja
Um doce de anjo
Damascos e amêndoas

- Sim, é você que não se reconhece
um desejo de mim que ultrapassa você
um delírio sem cabimento
e sem controle se vai, no rumo do infinito

tão largo mundo, tão gigante
dentro de nós



domingo, 27 de novembro de 2016

Delta de Vênus parte I




Conduzida pela minha vontade
Contra a velocidade das ruas
Degelando fisionomias alheias

Vestida com roupas de seda antiga
Botas de lutadora de boxe
E broches com dragões dourados

Cavalos invisíveis, dorsos selvagens
Na mala, um perfume de laranjeiras

           Caminhando entre seres enevoados
           Um prazer estranho se aproxima


sábado, 15 de outubro de 2016

promessa de fogo



 

é algo que vem de você e minha alma sai do silêncio
o gosto salgado me leva à um prazer estranho
lágrimas quentes e brisas movendo-se em saudação às folhas

os loucos verdes momentos da primavera
ainda sob um céu rasgado de azul intenso
e você livre para o amor, acercando a dilatação de minhas veias

teus pulsos,
estômago e ventre tremendo colados em mim,
a terra ainda  fresca, e nada morre

substâncias se misturam e copulam aos meus pés
desenhos coloridos perfume de almíscar
misturando-se com jasmins intensos meus pensamentos

– eliminando percepções adversas do trânsito ao longe e do resto do mundo mais longe
salvando o humor com a leveza dos ossos –

o tempo tropeça tão logo vejo a lua
menestrel da noite se aproximando aos poucos
mergulhando tudo dentro de nós e nós em tudo



sábado, 3 de setembro de 2016

ainda estou aqui



pelo telefone, meu amor, nem me diga
sobre as palavras tão pouco que ouvias
que elas sim, saíram direto do meu estômago
esses tapas que damos na própria cara
e como você mesmo diz, éramos perdidos

e isso me deixa fula da vida, e meus ossos enterrados
do outro lado da linha telefônica
esse fio horrível percorrendo a zona periférica
madrugada vazia dando murro em ponta de faca 


esperei por você como quem aguarda a redenção
de si mesmo, a novidade de ser outro
mas feito um leão
solto pelas ruas, entre os edifícios cinzentos 
perdendo-se
as meias vermelhas quase transparentes
só para deslizar no sol das tuas pernas